Renda do trabalhador cai e patrimônio dos ricos avança


A turma da grana grossa não tem do que reclamar – e talvez por este mesmo motivo, acrescido da perspectiva de negociatas muito lucrativas com o patrimônio estatal, continua a dar sustentação ao desgoverno de Brasília.

Lauro Veiga Filho

FonteGGN
Data original da publicação: 30/09/2021

Num país onde as disparidades já eram alarmantes, o fosso entre os muito ricos e todo o resto vai se alargando, gerando mais iniquidades, concentração da renda e das riquezas. O cenário tornou-se ainda mais complicado por conta da pandemia e pela ausência completa de uma política econômica que pudesse minimamente habilitar a economia a enfrentar a crise, evitar o agravamento da miséria e a volta da fome em escala desastrosa. A preocupação única do senhor ministro da Economia e de sua trupe de assessores tem sido preservar a ferro e fogo o famigerado teto de gastos, a um custo social altíssimo, e assim apressar a liquidação do Estado, o que significa fechar bons negócios com os coleguinhas do mercado, loteando, no caminho, as possibilidades de um futuro para o País.

Os dados brutos, trabalhados neste espaço, são do Banco Central (BC), que divulga mensalmente a posição de todos os haveres financeiros estacionados em bancos, corretoras e demais instituições do mercado, mas não inclui o dinheiro movimentado pelas bolsas de valores. A autoridade monetária calcula, igualmente, mas com defasagem de quase três meses, a massa salarial ampliada disponível, que inclui salários, aposentadorias, pensões, pagamentos do programa Bolsa Família e benefícios de prestação continuada, descontados o Imposto de Renda recolhido na fonte e as contribuições para a Previdência.

A trajetória daqueles dois indicadores é um retrato quase perfeito e acabado da situação econômica e social no País nesses tempos tenebrosos. A massa salarial disponível chegou a ensaiar uma reação pífia desde fevereiro deste ano, em valores apenas nominais, mas continua correndo atrás da inflação, quer dizer, continua perdendo para a alta dos preços, ainda em aceleração por conta dos aumentos da gasolina, do etanol, do diesel, do gás de cozinha, da energia elétrica, das carnes, do leite longa vida, do café moído, da batata inglesa…

Reação enganosa

Sem descontar a inflação, a renda dos trabalhadores (quer dizer, a massa salarial ampliada disponível, para os mais puristas) havia encolhido de R$ 3,445 trilhões nos 12 meses encerrados em junho do ano passado para R$ 3,272 trilhões, em números arredondados, em fevereiro deste ano. A perda nominal, já expressiva, havia sido de R$ 173,534 bilhões, num recuo de 5,04%. Entre fevereiro e junho deste ano, sempre tomando a massa de rendimentos acumulada em 12 meses até o mês de referência, avançou 1,54%, atingindo R$ 3,322 trilhões – foram “recuperados”, sob essa avaliação nominal, perto de R$ 50,333 bilhões, equivalentes a 29,0% das perdas registradas entre junho de 2020 e o segundo mês deste ano. Como os preços em geral correram mais do que os salários, em termos reais, os trabalhadores continuaram perdendo renda. Descontada a variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a massa salarial ficou 1,9% menor na comparação entre junho e fevereiro.

Também atualizada com base no IPCA, a massa de rendimentos disponíveis havia se aproximado de R$ 3,743 trilhões em junho do ano passado, o que significa dizer que a renda dos trabalhadores murchou 11,2%, correspondendo a uma perda real de R$ 420,484 bilhões até junho deste ano (ainda considerando o acumulado em 12 meses). Em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) estimado pelo BC, a massa de rendimentos, que chegou a corresponder a 47,9% do total de bens e serviços produzidos em um ano pelo conjunto da economia até junho de 2020, passou a representar 41,4% do produto. Essa relação em fevereiro deste ano havia alcançado 43,3%.

Nada a reclamar

A turma da grana grossa não tem do que reclamar – e talvez por este mesmo motivo, acrescido da perspectiva de negociatas muito lucrativas com o patrimônio estatal, continua a dar sustentação ao desgoverno de Brasília. No total, incluindo haveres financeiros de não residentes no País e excluindo a caderneta de poupança, a dinheirama estacionada no mercado financeiro, em seus diversos veículos de investimento, superou ligeiramente R$ 8,019 trilhões em agosto deste ano (alguma coisa em torno de 98,0% do PIB).

Comparado a agosto do ano passado, o patrimônio financeiro dos muito ricos cresceu quase 14,0% em termos nominais (algo próximo a 3,6% em valores corrigidos pelo IPCA). Em agosto do ano passado, o total de haveres financeiros em poder dos muito ricos havia somado R$ 7,038 trilhões, representando 97,8% do PIB estimado pelo BC para o período.

Como se percebe, a “poupança” dos donos do dinheiro continua avançando num momento de queda para os rendimentos dos trabalhadores. Essa combinação tende a gerar resultados pouco producentes para a economia como um todo, pois sobrarão menos recursos para alimentar a demanda e movimentar a atividade econômica, freando a criação de empregos e a geração de renda futura para os trabalhadores, com efeitos novamente regressivos e recessivos.

Em valores meramente nominais, o maior salto, proporcionalmente, veio não por coincidência dos haveres financeiros em poder de estrangeiros, que saltaram 31,65% entre agosto do ano passado e o mesmo mês deste ano, saindo de R$ 496,112 bilhões para R$ 653,112 bilhões. Trata-se do típico “dinheiro andorinha”, que invade o País em busca de lucros fáceis e rápidos e logo alçam voo em busca de outras paragens e novos ganhos. A alta dos juros domésticos, combinada com as flutuações no mercado do dólar, pode ter influenciado na atração de pelo menos parte desses recursos.

As aplicações em títulos federais passaram a atrair mais investidores, com o saldo dos recursos destinados a este mercado subindo de R$ 408,186 bilhões em agosto de 2020 para R$ 526,568 bilhões no mesmo mês deste ano, um salto de 29,0%. Os títulos privados atraíram mais recursos, somando investimentos de praticamente R$ 2,455 trilhões em agosto deste ano, mas sua variação foi bem mais tímida, num avanço de 11,5% frente ao mesmo mês de 2020 (R$ 2,202 trilhões). Os fundos de investimentos receberam R$ 4,128 trilhões na posição de agosto último, frente a R$ 3,713 trilhões em igual mês do ano passado, subindo 11,2% no período. A indústria dos fundos continua respondendo por mais da metade dos haveres financeiros.

Lauro Veiga Filho é jornalista, foi secretário de redação do Diário Comércio & Indústria, editor de economia da Visão, repórter da Folha de S. Paulo em Brasília, chefiou o escritório da Gazeta Mercantil em Goiânia e colabora com o jornal Valor Econômico.

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