A política está em toda parte, mas a capacidade de transformar indignação em mudança duradoura parece cada vez menor. Trabalho, organização coletiva e democracia ajudam a explicar esse paradoxo.
Por Marilinda Marques Fernandes | Porto Alegre, 2026
Vivemos um tempo de politização intensa. Opiniões circulam sem pausa, temas privados ganham leitura ideológica e cada novo conflito parece exigir posicionamento imediato. Ainda assim, essa energia raramente se converte em organização estável, representação ou melhoria concreta das condições de vida.
Esse contraste é decisivo para entender a relação entre democracia, trabalho e eleições. Quando o vínculo coletivo se enfraquece, a insegurança material cresce e as instituições deixam de responder às expectativas sociais, abre-se um terreno fértil para discursos que prometem ordem, identidade e respostas simples. A direita radical aprendeu a ocupar esse terreno com eficiência.
A questão eleitoral, portanto, não se limita à escolha de nomes ou à continuidade de um governo. Ela envolve o papel do Estado, a força dos direitos, a qualidade da representação e os próprios limites do poder.
Da política de massas à hiperpolítica
O historiador belga Anton Jäger propõe uma periodização útil para ler essa transformação. Até 1989, predominava a política de massas. Partidos, sindicatos, greves e associações davam escala às demandas sociais. A pressão coletiva atravessava as instituições e conseguia produzir efeitos materiais, como emprego, renda e proteção trabalhista.
A queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética alteraram esse equilíbrio. Com o enfraquecimento do contraponto ao capitalismo liberal, a política perdeu espaço para uma linguagem de gestão. Bancos centrais, ministérios da economia e organismos multilaterais passaram a exercer poder crescente, muitas vezes apresentados como instâncias técnicas e neutras.
Depois da crise financeira de 2008, a indignação retornou às ruas. Primavera Árabe, Occupy Wall Street, Podemos, Syriza, as jornadas de junho de 2013 no Brasil e os protestos que se seguiram ao assassinato de George Floyd mostraram enorme capacidade de mobilização. O saldo institucional, no entanto, ficou abaixo da energia social produzida.
Figura 1. A passagem da política de massas à hiperpolítica.
Fonte: Síntese elaborada a partir da palestra e da periodização proposta por Anton Jäger.
O que o trabalho tem a ver com a democracia
Democracia não vive apenas de regras eleitorais. Ela depende de pessoas capazes de reconhecer interesses comuns, formular demandas e sustentá-las ao longo do tempo. Por isso, mudanças no mundo do trabalho afetam diretamente a vida política.
A desindustrialização, o avanço tecnológico e a multiplicação de vínculos precários fragmentaram ambientes que antes favoreciam convivência, identidade profissional e organização sindical. O trabalho ficou mais disperso, a negociação coletiva perdeu força e uma parcela crescente da população passou a enfrentar insegurança sem canais eficazes de representação.
Não se trata de idealizar o passado. A política de massas também produziu exclusões e estruturas rígidas. O ponto é reconhecer que ela oferecia instrumentos de continuidade. Sem eles, a insatisfação permanece, mas encontra dificuldade para se transformar em programa, decisão e política pública.
Hiperpolítica: muita expressão, pouca consequência
Jäger chama de hiperpolítica a combinação entre politização extrema e baixa capacidade de produzir consequências duradouras. Tudo passa a ser interpretado politicamente: a linguagem, a família, o gênero, o consumo, o futebol e as escolhas cotidianas. Ao mesmo tempo, filiação, coordenação e permanência se tornam mais raras.
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Nas redes sociais, intensidade costuma ser confundida com poder. Uma publicação viral demonstra alcance, não organização. Uma onda de indignação pode dominar o debate por alguns dias e desaparecer antes de construir liderança, método ou compromisso coletivo. A democracia perde densidade quando a expressão individual substitui a ação coordenada.
Esse vazio de representação não permanece desocupado. Ele se transforma em uma oportunidade para quem consegue oferecer uma narrativa coerente, ainda que simplificadora, para medos e frustrações dispersos.
Como a crise de representação alimenta a direita radical
Desemprego, perda de renda, desigualdade, migração e desconfiança institucional ajudam a explicar o ambiente social, mas não determinam automaticamente o voto. O mal-estar precisa ser interpretado, organizado e dirigido. Partidos, lideranças e redes cumprem essa função ao escolher inimigos, repetir diagnósticos e transformar problemas complexos em atalhos emocionais.
A direita radical costuma concentrar atenção em três temas: corrupção, imigração e segurança. A elite política aparece como inimiga, a diferença cultural como ameaça e a força como solução. A repetição dá unidade a experiências distintas de insegurança e oferece uma sensação de pertencimento.

Esse movimento ganhou escala institucional. Nas eleições europeias de 2024, o recém-formado grupo Patriotas pela Europa iniciou a legislatura com 84 cadeiras, tornando-se a terceira maior força do Parlamento Europeu. Somado a outras bancadas do campo conservador radical e nacionalista, o dado mostra que já não se trata de uma presença marginal.
Figura 3. Composição do Parlamento Europeu no início da legislatura 2024-2029.
Fonte: European Parliamentary Research Service, dados extraídos em 18 de julho de 2024.
Quando a promessa de ordem reduz o espaço da política
A política democrática exige conflito legítimo, negociação e convivência entre diferenças. A lógica autoritária opera em sentido contrário. Ela associa ordem à vigilância, segurança à punição e unidade à homogeneização. Nesse enquadramento, a pluralidade deixa de ser parte da democracia e passa a ser tratada como desordem.
A infraestrutura digital amplia essa disputa. Dados, algoritmos e plataformas controlam fluxos de atenção e influenciam as condições do debate público. Quem domina esses circuitos consegue testar mensagens, segmentar públicos e repetir narrativas em velocidade muito superior à das formas tradicionais de organização.
O risco não está somente na desinformação isolada. Está também na capacidade de criar ambientes em que determinados sentimentos ganham visibilidade constante, enquanto soluções coletivas parecem distantes, lentas ou inviáveis.
O alerta de Portugal
Portugal oferece um caso expressivo da mudança na representação política. Em 2019, o Bloco de Esquerda conquistou 19 cadeiras e o Chega, uma. Na composição parlamentar resultante das eleições de 2025, o Bloco ficou com uma cadeira e o Chega alcançou 60.
O número não autoriza uma explicação única. Ele, porém, reforça uma pergunta incontornável: o que acontece quando partidos historicamente identificados com transformação social passam a ser percebidos sobretudo como gestores da governabilidade? Na leitura apresentada na palestra, a perda de nitidez política deixa eleitores disponíveis para forças que encenam ruptura e radicalidade.

Fonte: Assembleia da República de Portugal. Resultados eleitorais e composição dos grupos parlamentares.
O que está em jogo nas eleições brasileiras
No Brasil, as eleições de 2026 colocam em disputa algo maior que a continuidade administrativa. A Constituição de 1988 consolidou o Estado Democrático de Direito, direitos sociais, instituições de controle e um sistema de proteção que permanece incompleto, mas estruturante.
Projetos autoritários procuram aproveitar as falhas concretas da democracia para atacar a própria democracia. A precariedade dos serviços, a insegurança, a desigualdade e a frustração com instituições são apresentadas como prova de que direitos, pluralidade ou participação seriam obstáculos à ordem. Essa inversão precisa ser enfrentada com instituições firmes e capacidade real de entrega.
Proteger regras eleitorais é indispensável, assim como conter manipulação digital e resistir a pressões externas. Isso não basta. Governos democráticos também precisam cumprir o mandato popular. Quando direitos existem no papel, mas não chegam ao cotidiano, promessas autoritárias encontram espaço.
Democracia precisa ser sentida na vida concreta
A resposta progressista perde força quando se limita a administrar o presente. Uma democracia resistente precisa oferecer futuro e produzir melhorias visíveis. Isso exige enfrentar as condições materiais que alimentam medo, ressentimento e desconfiança.
Renda, serviços públicos, habitação, trabalho protegido e participação formam uma agenda democrática concreta. Distribuir riqueza, ampliar saúde e educação, garantir segurança material, recompor direitos trabalhistas e democratizar decisões não são temas paralelos à defesa da democracia. São a sua base social.

Crises profundas tratadas com respostas tímidas tendem a ampliar a radicalização. Reformas estruturais capazes de reduzir desigualdade e insegurança podem reconstruir confiança. O desafio é mostrar, pela experiência cotidiana, que a democracia oferece mais liberdade, mais proteção e mais capacidade de decidir coletivamente.
Mais democracia, maior distribuição de riqueza
A direita radical não será reduzida apenas por discursos de moderação ou apelos abstratos à institucionalidade. Sua expansão precisa ser enfrentada no território em que ela recruta adesão: a vida concreta de pessoas que perderam segurança, representação e expectativa de futuro.
Defender a democracia significa proteger eleições, direitos e instituições. Significa também devolver à sociedade instrumentos de ação coletiva e condições materiais para que a cidadania não se limite ao voto. Trabalho digno, serviços que funcionam, participação efetiva e distribuição de riqueza são parte da mesma arquitetura democrática.
Marilinda Marques Fernandes |
Quando a democracia entrega direitos, participação e futuro, o autoritarismo perde a capacidade de se apresentar como única alternativa ao mal-estar.
Marilinda Marques Fernandes | Porto Alegre, 2026
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